sexta-feira, 3 de abril de 2009

Armagedom

Pensamentos sombrios a respeito da X

Hoje eu descobri que a minha professora de italiano ganha 650 euros por mês para dar aula pra nós. O contrato dela acaba e no fim do ano ela (óbvio) está partindo pra outra.

Ela aproveitou a revelação para falar do departamento de línguas da X. De como eles não têm dinheiro e querem cortar gastos. Uma das idéias que estão tramitando seria de cortar as línguas na troisième année, ou seja, durante seu percurso na X você tem curso de línguas durante um ano, e acabou. Outra idéia é diminuir de 80 para 60 horas (por semestre) a carga dos cursos "fáceis" como italiano e espanhol.

Isso me fez pensar no quanto essa escola é demagoga. É uma coisa de que se desconfia logo no primeiro mês que se chega aqui, mas você acaba não dando muita bola. É a melhor escola da França, a fama é tão grande que você fica com aquela certeza de que o lugar é ótimo mesmo assim. Pouco a pouco a situação vai degradando enquanto você vai se acostumando com a precariedade.

Você chega aqui e reúnem todo mundo para o diretor (um general do exército) insistir no quanto a formação multidisciplinar é importante na X. "Vocês farão esporte! Vocês aprenderão línguas! Vocês terão uma formação humana, e propomos cursos de arte, de psicologia, de arquitetura, para a formação de vocês!"

O esporte é TÃO importante que se por qualquer motivo eles precisam de uma janela pra alguma coisa, pronto, não tem esporte. Foda-se o esporte, vai ter uma palestra sobre pesca artesanal, presença obrigatória. De uniforme, hup, hup! coloquem seus chapéis pontudos e espadinhas e venham ouvir o pescador falar!

Quando eu descobri que os franceses aqui tinham que fazer inglês, língua obrigatória a não ser que você já tenha um nível muito bom, eu achei bem interessante. Não esperava, e fiquei com a impressão de que aquela história de protetorismo idiota da língua francesa era um assunto superado, ao menos nas grandes instituições de ensino superior, e achei muito positivo.

Foi hoje que eu me dei conta de que só pode ter um motivo para os caras dizerem que vão ensinar inglês aos seus alunos franceses em míseras quatro horas por semana durante um ano. Por isso que francês fala inglês daquele jeito (é uma piada... mas enfim os caras falam mal). Como eu dizia, só pode ter um motivo...

É a imagem.

O projeto da X é melhorar sua imagem. É o objetivo. Não é um segredo, eles mesmo falam isso. Trazer alunos internacionais é únicamente um aspecto dessa política, como eles mesmos dizem quando vão lá na Poli USP falar do programa. E é assim que certos objetivos correm o risco de serem deixados de lado. O importante não é ter um ensino de línguas de qualidade... o importante é TER.

É como a lendária formação humana e militar (comentei sobre o respectivo departamento, DFHM, em um post recente). Teoricamente somos enquadrados em uma hierarquia militar. O coronel que comanda os alunos do meu ano adora enviar emails pra todo mundo, sempre com erros de francês que fazem até os estrangeiros estremecerem, em que de vez em quando ele gosta de nos relembrar que nós estamos em um enquadramento militar para nos ensinar a ter um "bom comportamento". Que na X não se dá apenas instrução mas também "educação". Que o estágio militar é pra isso. Que a X tem uma formação "completa". CARALHO, quem entra aqui tem pelo menos 18 anos, precisa de um MILITAR pra nos ensinar a ter EDUCAÇÃO!? Hã!?

Quem trata como criança está criando crianças. Aqui tudo é obrigatório (claro, pois é militar.. hmm), então a galera não vai no esporte porque gosta. Vai porque é obrigatório. Não vai no curso de psicologia porque gosta. Mas é obrigatório. Não faz italiano por que gosta... adivinha. Claro, tem exceções, tem gente que aproveita, mas é óbvio que aproveita menos, pois tem colegas menos motivados. E assim eles ainda perdem a chance de fazer alguém se interessar por esporte, por psicologia, por italiano.

A única coisa que nem precisaria ser obrigatório pra todo mundo ir são os cursos científicos (com ressalvas, mas não vou me prolongar muito), é óbvio, pois essa foi a escolha de quem está aqui. Fora isso se o cara quer fazer inglês ou jogar futebol por que não deixar escolher? E fazer uma coisa de qualidade para alunos interessados?

A X é a melhor escola da França, e o nível do ensino científico é realmente muito bom, mas enquanto essa política da imagem não vier acompanhada de uma política da qualidade, com uma proposta autêntica e o fim dessa cara-de-pau típica de militares cabeça-oca a escola não vai passar disso. A melhor da França, ponto.

3 comentários:

dinosaulo disse...

PS. Não se preocupem bixos, se vocês vierem ainda vão ter que se confrontar com um nível bem superior, pelo menos em matemática, e sem dúvida vão aprender bem mais do que se ficarem no Brasil.

Enfim, eu ainda não fiz meu texto sobre a Poli. Hahaha!!
Não mas eu gosto muito da Poli galera, mas ela tem seus problemas também, é óbvio. Um deles que dá pra ver bem daqui é o nível em matemática.

Julian disse...

Cheguei na metade do seu texto e fiquei imaginando ele no IK, com os franceses lendo.

Ja ta cheio de artigo no IK reclamando da scolarité da X, e esse ataca um ponto diferente, e de uma maneira muito boa, dos problemas da X.

Vc daria autorizaçao de traduzir e botar no IK ? =P

Gabriel disse...

+1 Julian!

aliás, psiu... "exceções"